Existe uma assimetria estrutural neste mercado que a gente demorou a enxergar com clareza. Quem sente o problema de forma mais aguda normalmente não é quem autoriza o gasto.
Um roteirista ou um diretor convive com a frustração de um projeto que ninguém consegue ver. Essa frustração é real e é intensa. Só que o orçamento de um proof of concept costuma estar com um produtor, um financiador, um executivo de desenvolvimento ou uma empresa, e essa pessoa não está frustrada. Está avaliando.
Os dois são públicos legítimos. Eles querem filmes diferentes, e a maior parte dos proof of concept é construída para o primeiro e mostrada para o segundo.
O que o criador quer que o filme faça
Comunicar. Parar de ter que explicar. Fazer a coisa que está na cabeça dele existir fora dela para que uma conversa possa finalmente começar do lugar certo. Muitas vezes tem algo próximo de alívio nisso.
O instinto dele é provar a visão. A parte mais distintiva, mais pessoal, mais singular do projeto, porque é a parte que ninguém conseguiu ver e é a parte com que ele se importa.
O que quem tem o orçamento está fazendo
Algo mais frio e inteiramente razoável. Está perguntando se comprometer com este projeto é defensável.
- Existe público, e ele pode ser descrito para outra pessoa.
- A escala é honesta, ou isso vai custar o dobro do que está sendo discutido.
- A equipe associada consegue executar, e existe evidência em vez de entusiasmo.
- O que acontece comigo se der errado, e o que eu diria sobre por que apoiei.
- O projeto é empacotável: consegue atrair o elenco, o coprodutor, o distribuidor de que precisa.
Note que nenhuma dessas é isso é bom. Qualidade é assumida como patamar, não tratada como argumento.
O criador precisa que o filme diga olha isso. O financiador precisa que ele diga isto está sob controle.
Por que o filme que só prova visão rende menos
Um proof construído puramente para provar a visão costuma ser espetacular e costuma não ajudar, de um jeito específico: ele pode fazer o projeto parecer mais caro, mais singular e portanto mais arriscado do que é.
O criador provou que a coisa é especial. O financiador acabou de aprender que ela é especial e difícil, e difícil já era a preocupação dele.
O filme que serve aos dois
Ele existe, e não é meio-termo entre os dois. É a coisa singular, mostrada de um jeito que também se lê como alcançável.
Concretamente: escolha o elemento mais distintivo do projeto e prove numa escala que pareça alcançável em vez de no espetáculo máximo. Uma locação só que não poderia ser em nenhum outro lugar bate uma montagem de cinco. Uma atuação que sustenta uma virada difícil de tom bate uma sequência de momentos grandes. Contenção se lê como controle, e controle é exatamente o que o segundo público está procurando.
Isso não dilui a visão. Demonstra ela sob disciplina, o que é uma afirmação mais forte que demonstrá-la com recurso ilimitado.
As duas frases
Para o criador: a gente ajuda você a comunicar o que ainda não existe. Para quem decide: a gente ajuda você a avaliar o que ainda não existe.
Mesmo filme, mesmo ofício, dois trabalhos diferentes. Se você está contratando, vale saber qual frase está comprando, porque a sala para onde você vai já decidiu de qual delas precisa.
O movimento prático
Antes da produção, escreva quem vai assistir e o que essa pessoa está arriscando. Não sobre quem o filme é. Quem está na sala, e o que custa pessoalmente para ela dizer sim.
Quase todo proof of concept que rendeu menos que o esperado rendeu porque essa pergunta nunca foi feita, e o filme foi feito para quem queria ele e não para quem precisava ser convencido por ele.
Os dois lados disso são o que a etapa de diagnóstico existe para resolver. Está na página de proof of concept.
Quem sente a dor e quem assina o cheque precisam de filmes opostos: um quer olha isso, o outro quer isto está sob controle. Prove a coisa singular numa escala que se leia como alcançável, porque contenção é lida como controle.
Diga quem está na sala e o que custa para essa pessoa dizer sim. É daí que a gente parte.
Começar o diagnóstico